A história de vida do produtor rural Antônio Delfino, da Fazenda Zumbi, em Mamanguape, é um retrato da força, da perseverança e da dedicação que marcaram a trajetória da agricultura paraibana nas últimas décadas. Aos 101 anos de idade, completados no último dia 25 de maio, ele mantém uma rotina que impressiona pela disposição e pelo amor ao campo, consolidando-se como o associado mais antigo da Associação dos Plantadores de Cana da Paraíba (Asplan) ainda em plena atividade. “Aos 101 anos, Seu Antônio continua sendo uma referência para o setor canavieiro paraibano e um exemplo para as novas gerações, mostrando que grandes conquistas são construídas com saúde, determinação e trabalho contínuo”, atesta o produtor canavieiro Domingos Sávio, que é vizinho de propriedade dele e, essa semana, o presenteou com uma camisa da seleção com o número 101.
Mesmo após ultrapassar um século de vida, Seu Antônio continua acompanhando de perto a produção de cana-de-açúcar em sua propriedade. Pelo menos uma vez por semana, ele sobe no próprio trator para dar uma volta pela fazenda e realizar serviços de gradagem, demonstrando que a paixão pelo trabalho permanece tão viva quanto nos tempos em que iniciou sua trajetória como fornecedor de cana. A caminhada até chegar as atuais cerca de 3 mil toneladas de cana produzidas por safra foi construída com muito esforço.
Antes de se tornar produtor rural, o Sr. Antônio Delfino trabalhou no Rio de Janeiro, onde exerceu a função de servente de pedreiro na construção civil. Ao retornar para a Paraíba, em 1972, decidiu investir suas economias na compra de uma pequena propriedade rural e começou a plantar cana-de-açúcar. A primeira entrega para uma usina foi modesta: apenas 60 toneladas de cana destinadas à antiga Usina Monte Alegre. Para transportar a produção, comprou, em sociedade com um vizinho, um caminhão movido a gasolina. O veículo marcou o início de uma trajetória de crescimento gradual, construída com trabalho diário e muita persistência e trabalho.
Ao longo de mais de cinco décadas dedicadas à cultura canavieira, Seu Antônio forneceu matéria-prima para diversas usinas da região, entre elas Monte Alegre, Pemel (Mataraca) e Miriri, essa última da qual é fornecedor há mais de dez anos. Mas, a vida no campo também foi marcada por desafios. O produtor enfrentou períodos de seca severa, oscilações do setor sucroenergético e acidentes graves. Em uma das ocorrências mais marcantes, sofreu queimaduras após um incêndio envolvendo um trator e precisou ficar internado por 17 dias em um hospital. Em outra situação, teve o joelho atingido por um trator. Nenhum desses episódios, porém, foi suficiente para afastá-lo da atividade rural.
Com serenidade e sabedoria, ele costuma atribuir sua longevidade e disposição à proteção divina, à saúde e ao hábito permanente do trabalho. “Deus é quem sabe das coisas. Eu só digo que o trabalho edifica e a fé sustenta”, diz ele, sem jamais reclamar das dificuldades enfrentadas ao longo da vida. As transformações do campo também fazem parte das memórias de Seu Antônio. Ele recorda que, quando era jovem, precisava levar uma pequena cabaça com água para determinadas áreas da região onde hoje existem cursos d’água permanentes. Mudanças que testemunhou ao longo de mais de um século de vida e que reforçam sua ligação profunda com a terra.
Pai de um filho, avô de cinco netas, bisavô de 11 bisnetos e tetravô de cinco tetranetas, Antônio Delfino construiu um legado que vai além da produção agrícola. Sua história representa valores como humildade, honestidade, fé e dedicação ao trabalho. Para os que convivem com ele, Seu Antônio é a prova viva de que a perseverança pode superar obstáculos aparentemente intransponíveis.



