Produção de etanol celulósico no país pode reativar a discussão sobre a remuneração da matéria-prima entregue pelos fornecedores de cana

etanol celulosico

etanol celulosicoProdutores querem receber pelo conjunto de subprodutos da cana e não apenas pela ATR como acontece atualmente

Para quem não acreditava na produção de etanol de segunda geração agora vai ter que mudar de argumentos porque a ideia de extrair açúcares da celulose presente no bagaço e na palha da cana e transformar em etanol, enfim, saiu do papel. O pioneirismo foi da Granbio, que anunciou o início da operação este mês, em Alagoas. Mas o etanol celulósico não traz à tona apenas a discussão sobre a questão energética no país. O feito também promete esquentar uma discussão antiga entre fornecedores de cana e donos de usinas: a de que é preciso rever o modo de remuneração dos produtores de cana, que só recebem pelo Açúcar Total Recuperável (ATR) – teor de sacarose contido na cana – e não pelos seus outros derivados.

Segundo o presidente da Associação dos Plantadores de Cana da Paraíba (Asplan), Murilo Paraíso, essa sempre foi uma luta da classe que até hoje ainda recebe seu pagamento apenas pela ATR, quando da cana é também aproveitada o bagaço e a palha. “Não é de hoje que queremos receber pelos derivados de nosso produto. A remuneração deveria incluir também os subprodutos da cana”, comentou o dirigente.

Considerado por especialistas como uma das maiores inovações do setor de agronegócios nas últimas duas décadas, o etanol celulósico pode deixar o Brasil em uma situação confortável em relação à energia. Isso porque se estima que, em longo prazo, será possível aumentar em 50% a produção brasileira de etanol com a tecnologia sem o cultivo de um pé de cana a mais. “Quem produz etanol está tendo uma chance agora de renovar suas plantas industriais com essa possibilidade do etanol de segunda geração. Os fornecedores também precisam dessa oxigenação”, reclamou Murilo Paraíso.

Como funciona

Atualmente, o intervalo de tempo entre a entrada da biomassa na usina e a saída do etanol celulósico pronto para venda é de cinco dias. A empresa Gradin estimou que em um mês, com o aumento da utilização da capacidade da fábrica, esse tempo diminuirá para três dias. Diferente do etanol de primeira geração, que leva oito horas para ser produzido porque é feito a partir dos açúcares “explícitos” no caldo da cana, o etanol de segunda geração demanda um processo industrial muito mais complexo.

Isto porque a palha da cana entra na fábrica e fica quatro horas no pré-tratamento, quando a estrutura da biomassa é “rompida” para abrir as fibras de celulose. Em seguida, as enzimas entram em ação (atualmente por 32 horas), no processo de hidrólise. Com isso, as fibras são “quebradas” em açúcares mais simples de serem fermentados. Ainda assim, o processo de fermentação demanda mais 72 horas e depois é sucedido pela destilação, que leva mais 3 horas.